Domingo, Setembro 28, 2008

O sonho (não) acabou




http://www.lacaravana.org/

“Você pode dizer que sou um sonhador/ mas não sou o único não/ e espero que um dia você se junte a nós/ e o mundo será uma coisa só”.
John Lennon

The dream is over
Horrorizado diante dos crimes cometidos pelos nazistas, o filósofo Theodor Adorno sentenciou que não podia mais haver poesia depois de Auschwitz. Mas um outro filósofo rebateu que, depois de Auschwitz, a vida somente era possível através da poesia. Do mesmo modo, a célebre frase de John Lennon, dizendo que “o sonho acabou”, após a dissolução dos Beatles, foi interpretada pelo poeta Gary Snyder como possibilidade de evoluir para além do sonho, naquilo que os movimentos dos anos sessenta/setenta propunham.

De fato, um clima de “baixo astral” dava razão aos mais céticos e cínicos, o sonho havia acabado. E acabado mal. Para isso contribuíram as mortes de Janis Joplin e Jimmy Hendrix, dois ícones da geração “paz & amor”. Crimes sexuais foram apontados como praticados por ativistas de esquerda. Um jovem negro foi assassinado em pleno show dos Rolling Stones. E a ditadura de mercado cantou vitória sobre a utopia daqueles jovens sonhadores.
Muitos voltaram para casa. Tornaram-se yuppies. Renegaram o sonho. “Coisa da juventude”, vovó tentou contemporizar. “Agora ele arruma um emprego”, disse o velho.


Homem do mundo
Nem todos abandonaram a utopia. Poucos resistiram. E partiram para a ação. Semana passada e retrasada (este texto foi escrito em 2006) passou por Londrina a “Caravana do arco-íris”. Motivo de curiosidades, seus membros deram entrevistas, realizaram palestras, cursos, participaram de eventos de outros grupos e deixaram a cidade. Um total de 20 nômades, em quatro caminhões, falando de tribalismo, ecovilas, experiências xamânicas, alimentação natural, antropologia andina, permacultura, cura holística, histórias ancestrais, etc. Assuntos que fazem rir quem parou de sonhar. Chacota de medíocres medianos midiatizados pela globo e pela veja.

Mais vivo do que nunca, um dos “filhos da bomba atômica”, o “homem do mundo”, Alberto Ruiz Buenfil, que é o organizador da Caravana, no alto de seus 61 anos, esforça-se para passar 40 anos da experiência que tem sobre lutas estudantes, organização de coletivos, anarquismo e arte, em pouco mais de 5 horas que ficamos juntos.

Começo a conversa desconfiado de papo místico. Meu interesse é artístico. Ele me diz que não praticam misticismo, mas espiritualidade. Vou direto ao ponto. Quero saber sobre arte e política e o que é desenvolvido pela Caravana, neste sentido. Dou mais uma dica para sugestão da conversa. Falo no Situacionismo dos anos 60. E então um portal se abre nos olhos do “guerreiro do arco-íris”. Ele não só sabe do que estou falando, mas diz que pertenceu à Segunda Internacional Situacionista, em 1971, fundada por Asger Jorn (1914-1973) e seu irmão Jorgen Nash. E que foi dali em diante que ele iniciou a prática do nomadismo, nutrido pela idéia de criar uma cultura que fosse tribal e global, ao mesmo tempo. Mais, de uma cultura que fosse do corpo e do espírito. Um corpo que faz de sua casa o mundo. E do mundo o lugar do seu corpo.


Uma história para contar
Nascido no México, teve que fugir de lá quando, lider estudantil, a barra pesou. E pesou pesado no México, talvez mais do que no Brasil, até. Foi para a Suécia atrás de perspectivas possí8veis para o tempo que vivia, voltou para o México, foi para Cuba, fundou comunidades e, desde 1996, está com a Caravana, atravessando desde o Alaska até a Terra do Fogo, na Argentina. Faz reuniões com comunidades indígenas, desenvolve eventos de cura e regeneração da terra e tudo aquilo que a contra-cultura e a geração hippie sonhou um dia.

Convida-me para entrar no ônibus/biblioteca e mostra seus vários livros. Alguns de sua autoria. Sobre anarquismo, situacionismo, xamanismo, flower power e, pô, esse cara é fóda, velho! Acabo ficando com um livro sobre a Caravana onde, no prefácio, é contada a história e o exemplo de seu pai, um antropólogo que descobriu templos aztecas que estavam soterrados, no México. Fala, também, do significado do arco-iris como elemento sagrado de várias culturas arquétipicas; traça a história do tribalismo desde 1930 e; fala de algumas profecias indígenas.

Também levo debaixo do braço um vídeo do encontro da Caravana do Arco-iris pela Paz, intitulado "O chamado do Condor", que me arrepia ao final, toda vez que assisto, porque, de fato, a ave sobrevoa a cabeça de todos, enquanto estão encerrando o encontro com pagés e xamãs, no vale em meio às montanhas irmãos de Machu Pichu.

Os demais membros da Caravana vão, cada um, cuidar de suas atividades, hóspedes na casa/centro cultural do Marcelinho, meu professor de capoeira de angola . Depois nos chamam. Dizem que estão atrasados e precisam partir. O sonho acabou. É preciso agir!

Quinta-feira, Maio 24, 2007

Cidade dormitório




Visão parcial do trabalho de Guga Ferraz, em exposição nas paredes externas da Galeria Gentil Carioca, Rio de Janeiro.

Já conhecia algumas coisas que ele tinha feito, como o adesivo para grudar em placas de sinalização nas paradas de ônibus. Sobre o desenho do ônibus, nas placas, era adicionado um outro desenho, de fogo, deixando o ônibus em chamas. Isso bem na época em que começaram a incendiar os ônibus no Rio de Janeiro.
Outro, tão ácido quanto, só que mais irônico: o desenho do Bush impresso sobre panos de chão. Coisa bem popular. Para quem não gosta do presidente dos EUA – cerca de 80% da população do planeta – este é um adereço indispensável para se ter em casa!
Mais um, só para ilustrar o texto. Simulando o desenho de indicação da saída de emergência colado nos vidros de ônibus, ele fez outro em que, no lugar da mão que empurra o vidro, há uma mão segurando uma arma. E, depois, escrito em baixo: "em caso de assalto, não reaja!".
Sabia da sua ligação com o Zona Franca, uma ação coletiva de chamar artistas para mostrar trabalhos experimentais, na Fundição Progresso. E, também, que ele é um dos editores da revista de arte O Ralador. Além de participante da ação de colar cartazes lambe-lambe, do coletivo de arte Atrocidades Maravilhosas.
Por aí já dá para sentir seu engajamento artístico e sua postura de enfrentamento com a realidade. E, até uma das características de seu trabalho, a repetição serial. Seja como impressão, gravura, ou como células que se desenvolvem, se multiplicam. Por exemplo, uma de suas proposições, intitulada "Coluna", em que várias pessoas – uma sobre o ombro da outra – faziam as vezes de sustentação de edifício, pode ser considerado um desses casos.

Repetição. Uma das portas para entender seu trabalho. Pois é disso que o artista tirou partido para criar seu "Cidade Dormitório", na parede da Galeria Gentil Carioca, na região central do Rio de Janeiro. Lá, em plena integração com a arquitetura do local – exteriormente suja e abandonada – a Praça Tiradentes, hotéis de baixa reputação e o Centro Cultural Hélio Oiticica, Guga crivou um "beliche" de 08 (!) andares.
Oferecendo um equipamento urbano a quem quiser passar algum momento – ou fazer qualquer outro tipo de ocupação – descansando em um dos "cômodos" dessa estrutura de ferro, com grades de madeira e chumbada à parede. E com colchonetes em todos os andares. Algo que lembra o minimalismo – pela pureza e repetição formal – mas zomba da história da arte.

Tal instalação de rua leva a pensar, primeiramente, na questão do déficit habitacional que impera no país, em geral, e, no Rio de Janeiro, em particular. E poderíamos ser induzidos a crer que o trabalho é um protesto do artista contra o estado de indigência que grassa pelo centro da cidade. Pode ser. Qualquer mendigo que quiser se apossar de um dos "quartinhos" pode fazê-lo, pelos próximos quatro meses, que é o prazo para a obra permanecer no local. Pelo menos é essa a intenção: de uso, de ocupação.
Sugere, também, tratar-se de uma mimese de um conjunto habitacional popular qualquer, como esses "ninhos de pombos" que se constroem, cada vez mais, para pessoas que podem pagar cada vez menos. E, já que a questão é tratada pelo viés da arte, aquilo pode ser um prédio qualquer, ou, mesmo, um brinquedo lúdico. Ou mesmo como uma proposta de nomadismo como estilo de vida. Um dia dormir aqui, outro dia lá, e assim por diante.
(Passando por ali, uma noite, dois dias depois da inauguração da exposição, as crianças do bairro e a polícia que vigia o local queriam saber o que era aquilo. E acabaram achando divertida a idéia daquele objeto. Logo as crianças fizeram dali seu brinquedo. E os guardas foram embora.)

O fato é que não há nesse e nem nos outros trabalhos de Guga Ferraz algo tão filantrópico ou lúdico, propriamente, como há nos trabalhos do artista polonês Wodiczko, que faz equipamentos urbanos para indigentes. Ou, no trabalho de Vito Acconci, um artista dos Estados Unidos, que fez um equipamento urbano, dentro do evento Arte Cidade, em São Paulo, colocando sanitários, banheiros e oferecendo um local para os homeless descansarem. A crítica de Guga é mais ácida. É mais irônica. E a ambigüidade entre o funcional e o estético, equipamento urbano e sarcasmo, no mínimo faz qualquer pessoa pensar a respeito daquilo de forma desconfiada. Não perguntamos se o que vemos é arte. Perguntamos sobre aquilo que vemos.

Finalmente, há que se pensar nos riscos desse tipo de trabalho, de embate com a realidade, que não possui a possibilidade de recuo, uma vez colocado em circulação, nem de ser refeito, como uma pintura ou uma escultura. Menos, ainda, de ser escondido no porão de casa, caso não tenha ficado ao gosto do artista. Esse enfrentamento com o suporte “vida” é que o torna instigante, desafiador, pois, ao levar em consideração o contexto onde a obra é exposta, permite uma aproximação com as pessoas, dentro de questões que lhe são pertinentes, e não como arte cujos códigos nem sempre podem ser acessados por um público não especializado. Esse, de fato, o desígnio.

(mais imagens de Guga Ferraz em: http://www.agentilcarioca.com.br/indexpor.html)

Paisagem inútil





"Campo de trigos com corvos" (1890), de van Gogh: paisagem desesperada em sua última pintura

"História: Aqui está um homem / Aqui está um cadáver / Aqui está uma estátua."
Joan Brossa

Depois de passadas tantas crises. Depois de tanto tempo esperando. Depois de ter conseguido domar a fera da revolta e da indignação que habitava seu peito, descobriu que não tinha mais nada a oferecer, então. Sua terra estava devastada. Aliás, perdera o direito a ela. Tinha sido expulso do Paraíso. Perdera sua Bela Vista. Agora só restava a paisagem desértica.


Mas o deserto não se resumia a um só lugar. Mas às idéias. E aos seus ideais, pelos quais um dia lutou. Apesar de tudo não podia desistir da vida, como fizera van Gogh depois de pintar "Campo de trigo com corvos", mas a imagem era similar. Não porque tinha vontade de continuar resistindo, mas porque lembrou-se de seu pai que dizia que "o problema é aonde cair vivo, não aonde cair morto". Riu, incomodado com o pensamento. Mas tinha medo da morte, também. Em caso de suicídio, sempre pensava, levaria mais uns vinte para o inferno, juntos com ele. E escolhidos a dedo. Na paisagem em que deveria colocar sua assinatura, havia ratos e não corvos. "Ratos não se transformam em humanos, mas, cada vez mais, humanos se transformam em ratos", tentou filosofar.


Em seu delírio, ainda balbuciou algo assim compreendido: "dominado pelas leis de mercado. Encurralado pelo discurso do progresso. Preso à histeria do consumo. Hipnotizado pela idéia fixa de que o trabalho é sagrado. De que a produtividade é redentora. E de que a tecnologia irá nos libertar para a exploração de outros Novos Mundos, a única coisa que o dito 'cidadão civilizado' quer, de fato, é vender ratoeiras e queijos". E mais: "esses ratos que não são ratos não se contentam apenas em vender. Querem controlar. Controlar para lucrar. Eis aí a utilidade do poder! Eis aí a consciência suprema que pode um rato-não-rato atingir!"
Era improvável, de qualquer modo, a busca por alguma inspiração mais altruísta. Já não podia e nem queria pintar outra coisa senão aquela cena catastrófica. Sentia-se como o andarilho que caminha sozinho, errante pelo mundo, despertando desconfiança por onde quer que passe. Um homem que questiona muito pode revelar algum aspecto podre, que ele traz dentro de si, nos outros. E isso pode gerar uma entropia perturbadora. O caos passa a ser ele, ao invés da situação.


Desistir não podia.


Talvez a tarde trouxesse alguma brisa, para aliviar o calor. Talvez tivesse forças para inventar uma paisagem encomendada para uma ocasião menos grave, embora o pêlo de seus pincéis, ressequidos pela tinta de tonalidades cinzas, denunciassem um abandono definitivo da idéia de pintar. E o que restava era apenas um quadro onde ratos pareciam se sentir à vontade com aquela paisagem inútil.

Manisfesto do DIA DO NADA 2007





Passando o recado

Lançamento da proposta para o DIA DO NADA 2007

Não custa lembrar:

O DDN cai sempre na primeira segunda de maio. Este ano, portanto, cai no Dia 07 de maio. Segunda-feira.

Definição simplista:
DDN não é contra o trabalho. É contra o trabalho desprazeroso, mecânico, robotizado, escravo.
Questiona a mais-valia e o lucro, sob todos os ângulos e hipóteses.
Descrê do progresso industrial e do uso da tecnologia eletrônica como evolução da espécie.
Ri do processo civilizatório.

DDN não é para NÃO fazer nada. O desafio, aliás, e este. A idéia é: fazer nada.
Tudo é trabalho. Tudo dá trabalho. Trabalho, em física, é a energia gasta por um corpo para se movimentar entre dois pontos. Portanto, enquanto o coração bater, existe o trabalho. E a idéia do Nada e do Vazio colocada em movimento como uma ação não cartesiana, melhor, como poética, é a questão.


Constatação
Por causa do Efeito Estufa, gerado pela emissão descontrolada de gases poluentes na atmosfera, principalmente CO2, a temperatura do Planeta está se elevando. O clima está se alterando, as estações do ano perderam suas definições. As águas de março ainda não chegaram e, mesmo em maio, o verão ainda não foi fechado.

O paradoxo quente
Voltemos à Física: se as partículas ficam em movimento constante, em atrito permanente, a velocidades cada vez maiores, então os corpos tendem à combustão, gerando cada vez mais calor. Esquentando mais, faz-se necessário, na nossa sociedade de mercado, um maior uso de refrigerador, ventilador, ar-condicionado, enfim, não queremos abrir mão do conforto industrial que deus nos deu, certo? Acontece que isso acaba gerando um maior gasto de energia, aumentando, assim, o calor. E Eis, assim, montado o paradoxo que nos coloca, a todos, dentro de um circuito vicioso cujo fim não precisamos de nenhuma lâmpada mágica para adivinhar seu desfecho.

Visão crítica
Para Al Gore e para os mercadores da vida o desastre ambiental representa Eco_dólares. E se aproveitam do calor que está fazendo para ganhar mais dinheiro vendendo ventiladores. Ou fazendo projetos mirabolantes como a construção de guarda-sóis no espaço, sucção do CO2 da atmosfera usando como depósito as reservas exauridas de petróleo, etc. Fazem acreditar que a tecnologia de ponta pode resolver o problema do desastre ambiental e que podem resolver o problema mundial por cada um de nós. No máximo, propõem a troca do uso de produtos mais poluentes, por outros, novos, modernos e “ecológicos”. Como se o material usado na fabricação desses produtos e o lixo dos outros, descartados, não interferisse, ainda mais, no problema ambiental.

O que é preciso pensar, em primeiro lugar, é que nossa cultura foi toda construída sobre os alicerces do domínio à natureza. E nunca de integração. O homem civilizado, ocidental, greco-judáico-cristão, sempre viu a si próprio como alguém na paisagem, mas nunca como alguém da paisagem. A natureza sempre lhe foi o fora. E o dentro sempre foi aquilo que ele construiu para vencer a natureza, chegando ao ponto que estamos vivendo agora, que é a de perder todo o contato e relação com ela e recebendo de troco um delicioso “tchau, humanidade, vocês são uns chatos”.


Proposta do DDN
Desmontar o discurso catastrofista dos apocalípticos que lucram com a miséria humana (neopentecostais, niilistas de plantão, comunistas endinheirados) e dos conformistas que acham que “isso não vai mudar nunca”, é uma maneira de tornar o problema menos insolúvel. Deter imediatamente a voracidade consumista, então, já é caminhar, a passos largos, em direção a um outro tipo de relação do homem com a natureza. Isto é, de integração e harmonia.
Mas não basta apenas desligar o ventilador durante quinze minutos e ficar de braços cruzados, com tédio e raiva, passando calor. É preciso que o espaço e o tempo sejam utilizados de maneira criativa e lúdica como resposta vital a esse modo de viver que nos quer reféns do impulso de morte. É possível utilizar as energias emanadas pela própria natureza, a nosso favor, sem ter de gastar um centavo por isso. Ao contrário, para nos humanizar através delas.
E o que nos torna mais profundamente humanos é a nossa capacidade de compreender a realidade e rir, quando, ao invés de nos lamentar pela situação ou de nos perder em abstrações intelectualizadas, agimos.

Questão concreta
Para o DDN, tanto quanto para a filosofia oriental e para a cultura indígena, agir é não-agir. É deixar acontecer. Como na Capoeira de Angola. Como no Judô. Usar a força, o impulso e o movimento do oponente, contra ele próprio. A nosso favor.
Eis o devir do vento, portanto, dando movimento a essas palavras. Não só a hélice do ventilador, no caso acima descrito, para combater o calor. Mas a vela do barco. Aqui, brincando com as folhas soltas das palavras da árvore-idéia, como uma aposta no lúdico.

Recado dado
Semana passada, na casa do Jarbas Lopes – que tem uma chácara em Maricá, cujo limite de sua propriedade é uma falésia, um corte abrupto na faixa de terra, que dá diretamente em uma lagoa formada por uma cadeia de montanhas, perto de Niterói – veio a solução do paradoxo do ventilador, que me assaltava desde que comecei a pensar em um tema para o DDN deste ano. Ou seja, o que propor para alguém fazer no lugar do ficar embaixo do ventilador desligado?
Foram as próprias crianças, sobrinhas e filhos do Jarbas, quem resolveram o problema. Não que elas soubessem de toda essa elaboração mental. Não é isso. O que aconteceu foi que havia várias redes de dormir – com mosquiteiro e tudo – lá e as crianças pediram ao Jarbas para dormir fora de casa, nas redes, dependuradas na árvore que fica perto da falésia. E foi uma festa. Amarramos umas seis redes na árvore e passamos a noite lá, entre a brisa que suavizava o calor que fazia e a paisagem imponente, ao longe. Sons, só de coruja, de vez em quando, e causos, que foram contados até as crianças pegarem no sono.
Como um recado dado, o DDN me apareceu com essa idéia pronta. E eu só tive o trabalho de contar o que aconteceu, embalado pelo vento.







Tempo quente




Plantação de árvores, de "7000 oaks", de Joseph Beuys: projeto iniciado em 1982 e completado postumamente, em 1987.



Um paradoxo
Enquanto aguardava a fila do caixa do supermercado, uma senhora, se abanando com uma folha de papelão, olhou-me desconsolada e disse que o calor estava demais. Vi todo o aparato funcionando à nossa volta – iluminação, ar condicionado, ventiladores, motores elétricos – e fiquei pensando que aquilo gastava grande quantidade de energia, fazendo aquecer ainda mais o planeta e obrigando, por sua vez, o aumento do consumo de energia para o funcionamento de ar-condicionados, refrigeradores e ventiladores...

Deter o consumo, não a redução de danos
Os fabricantes têm se esmerando em produzir novos modelos de aparelhos eletrônicos que gastem menos energia, ou de carros e meios de transporte que gastem menos combustíveis. Mas como estamos nas mãos do mercado e da mídia que depende das aplicações financeiras para se manterem, ninguém faz nada para conter o consumo de produtos. Como alternativa inventam o eco-dólar para continuarem ganhando sobre a destruição que eles mesmos produziram. Investem na redução de danos, criando marketing ecológico e vendendo novos modelos de marcas embalados em roupagens politicamente correta. Dizem que o guru da Nova Era é o ex vice-presidente dos E.U.A. que quer salvar o mundo do Efeito Estufa – nosso mais recente vilão. E que vai fazer shows com artistas de vários países, pela salvação do planeta: "Você investe em nosso banco e quem ganha é a natureza!". Melhor fazer poesia: "silêncio/ economia de palavras/ também é ecologia"

Arte: decorativa ou combativa?
A arte é sempre vista como a cereja que decora o sorvete que os outros tomam. Pelo menos assim é que a maioria das pessoas pensam ou a vêem. Como algo decorativo, fantasioso. Alegórico, mais precisamente. Ou seja, ela é admirada até o ponto em que não toca as questões que a vida propõe. E, ao permitir que ela seja rotulada como inocente diante da radical transformação que a sociedade está passando e continuará a passar ainda, por certo período histórico, deixamos cristalizar essa impressão de impotência, como se isso ajudasse a salvar nossa própria pele. E não é questão de denúncia ou citação, que é o que de mais alegórico pode haver, mas de interferir na própria carne da vida, muitas vezes sendo obrigado a tomar medidas drásticas para continuarmos vivos.

Se, por um lado, a luta de massas parece não conter mais aquele grau de viabilidade que um dia parecia conter, por outro lado, uma política que leve em consideração a "microfísica do poder", para poder se expandir, deve ter em mente uma mínima organização entre suas partes. Ainda que seja entre duas pessoas. E os artistas – e a arte, em geral – são os mais aptos a enfrentarem essa situação, uma vez que o anarquismo de suas proposições os levam a desenvolver o sentimento e a subjetividade como suas mais potentes armas.

Entre o posicionamento político, a reflexão filosófica e a ação prática artística, o planeta derrete de quente e aumenta a energia gasta para suportar o calor, cada vez maior. Uma vez que o uso das tecnologias não garante a sobrevivência do ser humano no planeta, o ideal seria repensar nossas necessidades diante do caos que insiste em nos apavorar. Ou alguém acredita que as enormes despesas gastas com o estudo genético, a criação de célula-tronco para reproduzir neurônios, ou o último modelo de celular - feito de algum material ecologicamente correto – servirá para acabar com a fome e a miséria da população inteira do planeta? Quando se fala em inclusão digital, será que conseguiremos construir 2 ou 3 bilhões de computadores para distribuir pelo mundo? Será que temos tantas reservas de matéria-prima assim, ainda, nos chamados países emergentes? E quem é que vai ganhar com isso?

Alguns artistas investem no efeito que o uso de novos programas em computador são capazes de oferecer, simplesmente pelo direito que têm em experimentar as novas ferramentas disponíveis no mercado. Ninguém tem o direito de condenar esse uso. Mas se sua arte não é capaz de ir além do mero jogo de formas e efeitos pirotécnicos. Se ela não é embasada por uma idéia capaz de provocar o espectador para além da sedução e da hipnose que o uso da máquina pode proporcionar, então sua arte está condenada ao mesmo paradoxo do ar-condicionado que aquela senhora que reclamava do calor, me fez pensar.



Domingo, Dezembro 17, 2006

Bienal vale pelas mostras individuais


Rubens Pileggi Sá

Históricos contemporâneos

Se, em seu conjunto, a 27ª Bienal de Arte de São Paulo possui lacunas que tornam o tema da mostra apenas um compartimento para separar arquivos que – aparentemente – dizem respeito ao "como viver junto" proposto, por outro lado, a própria impossibilidade dessa catalogação é o que torna interessante a visitação deste ano. As particularidades são maiores do que a soma o conjunto exposto, como um todo.
Só para ficar no terceiro andar do Pavilhão projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer para abrigar as Bienais, no Parque Ibirapuera, temos três artistas contemporâneos que já são parte da história da arte. São eles: Marcel Broodthaers (1924-1926), Gordon Matta-Clark (1943-1978) e Ana Mendieta (1948-1985).
Broodthaers é considerado um artista "pós-midiático", segundo a teórica, curadora, professora e crítica de arte Rosalind Krauss. Ou seja, sua obra se propõe a discutir as fronteiras entre arte e não-arte; entre o papel do curador, do autor e do colecionador de arte. Ao criar um Museu para expor em museus, o artista transforma a arte em uma questão de commodities – como se ela fosse um produto genérico – ao mesmo tempo em que se torna um preservador de objetos em extinção. Sua coleção de imagens de águias, que é um símbolo dos E.U.A., é o melhor exemplo disso. Tal apropriação de imagens embaralha a noção entre o que é original e o que é falso. Entre o que é ilusão e o que é realidade. Entre o que é único e o que é múltiplo.
Já em Matta-Clark – cuja obra é apresentada em objetos, imagens fotográficas e registros em vídeo – o que salta, de imediato, é a capacidade que o artista teve em se envolver com temas sociais e comportamentais dos anos 70, sem perder a atualidade. Além de uma poética contundente, seu engajamento político e humor tornam sua obra uma das mais profícuas da arte contemporânea. Dentre as obras expostas estão o hilário carrinho de respirar ar fresco, um muro de cimento e materiais reciclados e vários registros de obras e performances.
De Ana Mendieta – que tem nos rituais do corpo seu tema de trabalho – podemos apreciar várias de suas performances, registradas em vídeo e em fotografia, em que ela cava na terra, ou desenha com flores na água seu próprio contorno em situações em que a paisagem faz parte da relação com suas performances. No vazio do corpo cabem cores, fogo, perda de referências, de memória, etc.
Realidade e inteligência plástica
Além desses "históricos contemporâneos" que já valem a visita à exposição, as fotos do sul africano Pieter Hugo e as inteligentes e divertidas charadas "low-tech" que nos propõem a dupla portuguesa João Gusmão + Pedro Paiva, são alguns dos pontos altos da mostra.
No caso do sul africano, as fotos retratam cenas cotidianas de africanos em várias situações. Todas elas parecem deslocadas da realidade, embora sejam reais demais. São grupos de pessoas bizarras que se deixam fotografar; magistrados negros com perucas de tribunal que parecem não lhes pertencer e; artistas itinerantes que usam hienas e macacos babuínos em coleiras em suas aprsentações, no meio de paisagens devastadas pela exploração de diamantes e minérios.
A dupla portuguesa por sua vez, investiga o princípio da formação da imagem através de jogos em que texto e imagem fazem parte de uma narrativa onde a "baixa tecnologia" está a serviço de idéias que incluem postulados filosóficos e conceitos matemáticos. A partir de um feixe de luz projetado sobre um objeto qualquer, dentro de uma caixa preta, podem surgir as mais surpreendentes metáforas. Há, por exemplo, uma forma oval iluminada, projetada dentro de um ovo de avestruz, através de uma lupa, que sintetiza a natureza plástica de investigação da dupla.
Há, também, três projetores de filme 16mm passando várias cenas. O que chama a atenção, além do que é projetado na tela, em si, é que o próprio barulho do projetor – parecendo uma carroça, se comparada aos modernos vídeos – e a textura da imagem fazem parte do discurso visual, na obra. Na tela, podemos ver um homem tentando criar uma "Torre de Colombo", colocando um ovo, de pé, sobre outro, como se fosse uma coluna infinita da arte moderna. Ou um "Caçador de enguias", cuja imagem, passada de trás para diante, dá a impressão de bravura do homem que pega, com as mãos, em uma corredeira, uma enorme enguia. Há mais. Com duas tomadas de câmera, uma invertida e outra correta, atores "mudam" o eixo da terra. E, também, um duelo entre dois atores, diante de uma câmera fixa, de costas um para o outro, contando passos, até saírem de cena. Neste momento, o cenário, que é uma pedreira, explode.
Mais roteiros

Se você ainda não foi â Bienal, ou se ainda quiser ir novamente, recomendo, ainda, prestar atenção às obras de Dan Grahan e Dominique Gonzalez-Foerster. Talvez o tema da Bienal não lhe pareça tão evidente, mas, certamente, a visita às obras desses artistas lhe trará uma boa dose de prazer.

Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

(Sobre)Viver junto na Bienal


Igual na diferença
A idéia para o tema da 27ª edição da Bienal Internacional de São Paulo deste ano, "Como viver junto", veio de seminários realizados pelo filósofo francês Roland Barthes, entre 1976 e 1977. sobre "a vida em comunidades, em que os membros vivam em companhia e liberdade, como os budistas do Tibete". A partir dai, a curadora Lisete Lagnado vem trabalhando essa idéia que se desdobrou não apenas na mostra em cartaz no Parque Ibirapuera - até 17 de dezembro, domingo - como também em palestras realizadas ao longo do ano; produção de trabalhos que ocupam outros espaços da cidade; vivências, deslocamentos e viagens de artistas; bem como na realização de catálogos e livros, buscando levar essa questão o mais longe possível.
Diferença na igualdade
Viver junto é uma arte, mas o que se vê, logo depois da rampa de acesso ao primeiro andar do prédio, é um vídeo de um gato devorando um rato, na rua, como uma contra-imagem da possibilidade de compartilhamento existencial. Uma ilustração disso ocorreu pouco antes da montagem da mostra. A recusa do artista Cildo Meireles em participar do evento por causa de um banqueiro envolvido em corrupção que fazia parte da diretoria da Fundação Bienal, até aquele momento. Cildo não voltou atrás e seu trabalho acabou sendo o de não particiar do evento. Em todo caso, a pertinência do tema da Bienal é a da possibilidade de se levantar perguntas de como se viver juntos, sem uma economia solidária, sem distribuição de riquezas, sem iguadade de oportunidades e direitos. Esse é o cerne da questão.

+ ou - iguais
Uma das críticas possíveis à Bienal é a de que não foram chamados os coletivos nacionais de artistas, que desde os anos 90, pelo menos, se articulam buscando formas alternativas de sobrevivência, construção e visibilidade de seus trabalhos. Ninguém melhor que eles para mostrar como se dá a ocupação comum de espaços. A opção da curadoria, no entanto, foi a de privilegiar poéticas individuais, em espaços delimitados - tal como nas edições anteriores - transformando o tema em um slogan publicitário que pode ser entendido, também, como "alguma coisa nós temos em comum", ou "feito para você", sendo que o "você", no caso, são as milhões de pessoas que vivem fechadas "cada um na sua".

Desiguais
Além disso, há um excesso de trabalhos panfletários e diretos demais sobre política, mas internacionais e não brasileiros, como se não fôssems vitimados pelas mesmas questões de exploração, como na África, por exemplo. A falta de legendas em português e de informações mais detalhadas sobre obras e artistas tornam essa distância ainda maior. Vemos uma Ong da Argentina confeccionando capas de livros com papelão, mas se não entendermos que aquilo nasceu da crise recente naquele país, não compreenderemos o que quer dizer, de fato, aquele trabalho. Ou uma sala coberta com cartazes de protesto, mas como estão em outra lingua e pertecem a outro contexto, não nos envolvem.

Somatória final
Vale lembrar, no entanto, que o próprio Marcel Broodthaers - sobre o qual gira o conceito da Bienal - faz de seu trabalho uma tomada crítica à instituição, onde o papel do artista, do curador e do museu são colocados em suspensão, o que demonstra coragem da curadoria em expor sua visão de arte - e de uma mostra de arte - sob a pergunta feita a todos, que trata de "como viver junto?"

Terça-feira, Dezembro 12, 2006

Coluna de Colombo



da dupla portuguesa Pedro Paiva + José Gusmão

Quarta-feira, Novembro 01, 2006

Todo mundo é artista



O símbolo Ying/Yang, originário do Tao chinês, representa a união de forças contrárias, geradoras do movimento.

Todo mundo é artista

“Eu tô te explicando pra te confundir/ Eu tô te confundindo pra te esclarecer”
Tom Zé, na música “Tô”

Seja qual for a profissão da pessoa, se ela faz bem seu trabalho, é considerada um artista naquilo que faz. Sendo assim, os artistas podem assumir que o que fazem seja outra coisa, como revolução, medicina, sociologia ou matemática, certo? E entre artistas e não artistas não se encontram mais diferenças e distinções categóricas, desde que cada um saiba que o que faz tenha qualidades para ser chamado de arte. Qualidade, aqui, como consciência de um ato.
Outro ponto importante é que nos últimos 50 anos os artistas têm investido na participação do público como parte do processo de trabalho que passaram a fazer, valendo – como fórmula de um trabalho de arte que “funcionasse” – sua capacidade de interação com as pessoas. Público e obra só existem na medida em que se relacionam. A obra passa a existir, de fato, se for tocada, usada, vestida. Em última instância, não é isso o que faz um produto ser consumível, também? Portanto, ao descer do pedestal, ao perder sua moldura, não só a idéia de arte se modifica, mas também as coisas comuns tornam-se outras. Uma chave para abrir porta pode ser tão “arte” quanto uma chave capaz de acessar experiências subjetivas, como desejos, sonhos e idéias. Lembremos que “uma rosa é uma rosa, é uma rosa, é uma rosa”, mas não esqueçamos o que escreveu o pintor Magritte debaixo do desenho que fez de um cachimbo: “isto não é um cachimbo”. Podemos dizer que algo é aquilo que parece ser, de fato, mas, podemos dizer que algo é aquilo que pensamos que possa ser. Nada é, em absoluto, sem o filtro da interpretação, do símbolo, enfim.

O conceito de obra também não permanece estanque em forma de objeto, coisa materializada. Pode ser apenas uma idéia, um texto, por exemplo. Pode se dar no tempo, por etapas construídas por uma série de acasos, situações e processos inimagináveis e inumeráveis. Praticamente qualquer ato da vida pode se tornar arte, visto sob este ângulo. E aí a realidade não é só aquilo que vemos e fazemos, mas é, também, o que deixamos de fazer e o que não vemos. Não só o que ocorre na superfície da observação reagindo a nossos atos imediatos interessa, mas também o que permanece na esfera do obscuro, que nos usa para agir. Em pintura e escultura clássica aprendemos que a harmonia entre luz e sombra são o que definem o volume. Ou seja, as energias estão em oposição umas às outras, ao mesmo tempo em que a dinâmica entre elas cria o movimento da vida. Como no princípio de dualidade do Ying e Yang, que tem origem no Tao.

Levando em consideração que, hoje, a obra de um artista pode ser ele próprio – o artista enquanto arte – e que todos podem ser artistas, também, então, o ideal seria dizer que podemos viver em um “estado de arte” permanente, onde tudo e todos tenham essa potencialidade pronta para ser manifestada.
Para a física quântica, a observação muda o objeto observado. Sendo assim, devemos pensar que as relações não se dão mais em termos de sujeito e objeto, mas de trocas constantes entre meios distintos, onde o real e o sensível são partes indissociáveis de uma visão de mundo único para todos.
Desse modo, a arte torna-se um agente de transformações e conexões em que o social, o ambiental e o comportamental são levados em consideração. Transbordando além de suas fronteiras específicas, já que não atua mais como um jogo de formas dispostas em uma superfície determinada, como palco para suas ações. A arte ganha a rua, ganha os espaços públicos, amplia o circuito em que se move. Cria meios de difusão além do mero objeto, ou de seu registro, infiltrando-se na vida.
A chave para cada um se tornar artista é a compreensão de que aquilo que faz está inserido não só no ato em si, mas repercute na própria dimensão dos sonhos, dos desejos e das fantasia, que são tão reais quanto o que acreditamos ser a realidade.

pileggisa@hotmail.com

Terça-feira, Setembro 26, 2006

Arte política



















”Cowboy com chapéu”, de 1990. Trabalhos de Hans Haacke questionam a relação que envolve os patrocínios culturais.

ARTE POLÍTICA
Ações concretas
A arte mais contundente nem sempre está a favor do discurso do poder. Ao contrário, a arte que possui espírito crítico deve se valer de sua posição diante da realidade dos fatos, propondo caminhos de atuação. Foi assim com o "Construtivismo Russo", inserido em uma realidade concreta revolucionária. Foi assim também com o expressionismo alemão. E foi esse o tema que John Heartfield usou para suas fotomontagens contra Hitler e o Nazismo. Mudando inclusive seu nome, alemão, para o inglês, como provocação ao III Reich.
Ou como a Bauhaus, uma escola de design, arquitetura e artes plásticas de vanguarda
que funcionou entre 1919 e 1933 na Alemanha, com uma proposta de "arte industrial para as massas". Quase cem anos depois, as estéticas promovidas por esses artistas e movimentos continuam faróis que se miram à distância, como referência artística, ainda que se questione a ideologia que as originou.

Dois exemplos
Quando o assunto é arte política, dois nomes, com certeza, irão se destacar da lista. São eles o brasileiro Cildo Meireles e o alemão Hans Haacke. Cildo, na década de setenta, colava adesivos de protesto em garrafas de coca-cola, chamado esse trabalho de "inserções em circuitos ideológicos". Recentemente recusou-se a participar da Bienal de São Paulo, que ocorrerá este ano, em protesto à permanência de um banqueiro envolvido em fraudes, no Conselho Deliberativo da entidade. Dessa forma, Cildo conseguiu várias monções de apoio e solidariedade à sua atitude, que ganhou visibilidade. E, mesmo que não tenha sido um gesto para se transformar em uma “arte política”, não deixa de ser relevante que o banqueiro, por fim, tenha sido exonerado do cargo.
Haacke vai por essa mesma linha. Convidado a fazer uma mostra de seus trabalhos, juntou processos, documentos e fotos de uma pesquisa sobre os negócios imobiliários de um dos diretores do museu em que iria expor e fez disso seu “trabalho de arte”. Foi recusado semanas antes da abertura do evento, sob alegação de que aquilo que mostrava "não era arte", mas "uma crítica social específica". O fato ganhou repercussão e conseguiu chamar mais atenção por não ter sido exposto, do que se tivesse sido.
Em 1990, a companhia tabagista Philips Morris patrocinou uma exposição dos dois maiores nomes do Cubismo – Picasso e Braque – no MOMA, em Nova York, mostrando colagens. Haacke, então refez algumas destas colagens, aparentemente semelhantes aos originais, mas com alguns ingredientes a mais que perturbaram a relação de interesses que a empresa de tabaco mantinha com a instituição de arte. Como referência àquela exposição, colocou cigarros na boca dos personagens. E no lugar dos papéis de jornal originais, colou partes de jornais que falavam da exploração da indústria do cigarro em outros países. O que tornou claro, a partir de então, foi que empresas não patrocinam eventos de arte por pura benevolência, mas para associar sua imagem ao status que a arte costuma carregar em torno de si.

Consciência do contexto
Para esses artistas, nossa iniciativa não deve ser contemplativa, mas de questionamento. Não podemos simplesmente consumir as imagens sem pensar no que elas querem nos mostrar, de fato. Mesmo a mais ingênua pintura de natureza morta tem a nos dizer muito além do que a técnica empregada na sua feitura. Interrogar qual rede de interesses está por trás daquilo que nos mostram, ou que tentam nos esconder, é tomar consciência do contexto em que essa arte busca inserir-se.
Não são apenas dados estéticos que estão em jogo quando a arte se apresenta. Por isso, a arte política é aquela que melhor sabe mobilizar questões como essas, que, em última instância, requerem consciência.


autor: Rubens Pileggi Sá - uso sob critérios de copyleft