quarta-feira, março 06, 2013

Van Gogh da internet frustra o gênio van Gogh



A história da arte, como coloca Arthur Danto, em Após o Fim da Arte, é um longo processo de mimetismo, de 1300 a 1900. Ou seja, seu caráter é representacional, imitativo, buscando, ao longo dos séculos, aparentar a realidade visível. Clement Greemberg aponta, em seus textos, como a perspectiva, as luzes e as sombras, escorços e proporções fizeram a pintura tentar fazer o papel que sempre foi questão da escultura e não de seu próprio meio. À superfície bidimensional da tela não comportaria representar o que era da ordem tridimensional. E Sir Ernest Gombrich nos mostra a evolução das formas nas artes visuais, até seu rompimento com a ilusão, mostrando como o impressionismo e o pós impressionismo são partes desta história que Vasari já vivia e escrevia, in natura, com os renascentistas.

Dias atrás recebi um email de meu irmão, que é médico, com um arquivo ppt anexado, que mostra obras de Milliet que van Gogh havia copiado e usado em suas pinturas. Normalmente os ppts do meu irmão reproduzem um padrão de gosto que são frontalmente diferentes do que entendo do que vem a ser arte e senso estético. E, muitas vezes, quando vejo que os emails dele não são pessoais, não me entusiasmo a abri-los. O volume de informações que a internet produz obriga-nos a filtrar nossos interesses mais específicos. Não costumo enviar a ele notas sobre saúde, e acho peculiar seu prazer em compartilhar comigo assuntos que ele julga artísticos. Isso mostra que a beleza não é um assunto assim tão inútil quanto enfadonho. No caso do citado arquivo, abri, vi, e fechei, sem me colocar maiores considerações. Apenas entrei em alguns sites para conferir se as imagens eram, de fato, de Milliet e van Gogh. E eram, de fato. Depois, conversando ao telefone assuntos familiares, meu irmão me pergunta sobre o tal email: « Você chegou a abrir o email do van Gogh que eu lhe enviei? ». « Sim », respondi. « Você tinha ciência que o van Gogh copiava outros artistas? ». Eu respondi que não sabia, mas sei que os artistas usam as imagens de outros artistas como referência para seus próprios desenhos. Fazem releituras, revem o trabalho que os antecedeu. Que isso é normal em arte. Senti, em todo caso, que a resposta não convenceu. Na sua concepção de história da arte, aquela notícia da internet talvez traísse sua concepção de artista genial com a qual construíra a visão sobre van Gogh.

Mudamos de assunto, mas agora era eu quem havia me inquietado. Não porque a auréola do artista pudesse estar sendo arranhada, ao contrário, porque aquela informação sobre cópia, havia humanizado a visão que temos do gênio van Gogh e do mito de louco romantizado que a história da arte, em alguma medida, ainda cultiva sobre os artistas. Afinal, a cópia, para quem tem a obrigação de ser original, suspende a crença devocional e insuspeita de superioridade naturalizada e, ao mesmo tempo, traz a dúvida para uma dimensão antes inquestionável. Afinal, o dom, pendor ou o talento parecem opostos aos esforços de aprendizagem, aos estudos sistemáticos, aos exercícios diários, além da obrigação de regras que todos nós, mortais, somos obrigados a seguir quando queremos alcançar algo em nossa vida. Pior, ainda, para o pintor holandês. Porque aqui ele é acusado de plagiador, de copista, de um medíocre sem criatividade nem para inventar seus próprios temas. E isso, para nós, é um crime previsto até em lei. No entanto, copiamos o estilo do cabelo, da roupa e até do jeito de ser do artista de cinema, tv ou do ídolo do esporte. Ainda assim, se nos perguntam sobre essas coisas, justificamos dizendo que esse é o nosso 'estilo'.

É famosa a frase atribuída a Picasso – outro considerado gênio – que « o artista ruim copia. O artista bom, rouba ». De fato, a frase, como uma boa blague, é desconcertante. E, nesses nossos dias onde a imagem, a mensagem e a informação circulam velozmente e nem sempre fiéis às suas origens, a frase de Picasso faz muito sentido. A cultura 'Ctrl c + Ctrl v' – o hip hop, o mix informacional, enfim, a própria colagem nascida do cubismo – torna tudo reciclável. De original, apenas o modo de se apropriar e processar os bites e pixels na tela digital. Novas imagens de Frida Kahlo inundam todo dia as redes sociais, sejam em poses sensuais, ao lado de revolucionários, pintando na cama, etc. São imagens em preto e branco e tratadas com se fossem da época da própria artista. Como não vêm assinadas e as fontes são omitidas, é possível imaginá-las saindo secretamente do arquivo de algum pesquisador apaixonado, diretamente para as páginas do facebook. Eu mesmo compartilhei uma dessas fotos, sendo alertado, nos comentários, por um outro usuário da rede, que aquelas imagens não deveriam ser 'originais'.

Voltando ao caso van Gogh, segundo a frase de Picasso, nem bom artista o coitado era. Porque é acusado de cópia e não de roubo. Roubo seria o 'desenho apagado', de Rauschemberg, que comprou um De Kooning e fez de seu gesto uma atitude de arte, usando a fama do nome do outro para fazer a fama de seu próprio nome. Se isso não é uma atitude de gênio, ao menos é um tipo de roubo que, segundo a frase atribuída a Picasso, torna Rauschemberg “um bom artista”. Digo, roubo da imagem do outro.

Mas na época de van Gogh essas questões ainda não haviam sido colocadas. Aparentemente. Até pouco antes da época do pintor de Arles, precisamente até o Impressionismo, o que valia era a imitação do real visível imediato. Foram os impressionistas que entenderam a mudança da luz enquanto buscavam fixar a imagem na tela. Foram eles que deram à arte, ou melhor, à pintura, o aspecto de inacabado, porque eles estavam interessados em captar um ambiente, uma sensação e não uma aparência de realidade. Enquanto o pintor clássico tentava fixar a sombra no rosto de uma pessoa, a noite já tinha caído e a imagem, desaparecido, ou a sombra tinha mudado de aspecto e de lugar. Mas van Gogh, Cezannè e Gauguin são pós-impressionistas. Não estão mais interessados nas sensações do ambiente, mas na verdade da pintura. Por esta verdade sacrificam a aparência das imagens do mundo. Obrigam os objetos, retratos e paisagens a se conformarem à composição do quadro pintado. Modificam a cor das coisas, a luz do ambiente, fazendo com que os elementos se organizem no espaço retangular e bidimensional – plano – da tela. A pintura não é uma observadora particular do mundo, ela se faz mundo, como uma pedra, um rio, um pensamento, um sonho, uma máquina. Ela se objetiva por ser o que é, e não por ser outra coisa além.

Lembremos que Cezannè era assíduo frequentador do Louvre, onde copiava os mestres da antiguidade. Que outros artistas fizeram isso, também. Lembremos que o famoso e revolucionário quadro pintado por Manet, em 1863, “Almoço na Relva”, tem sua composição baseada em outras duas imagens, de mestres do passado. Para van Gogh, o que estava em jogo era a verdade da própria pintura, de sua pintura, e não a aparência com a realidade, sua habilidade imitativa de copiar e representar o visível. Daí que, na composição de seus quadros a pincelada fica evidente, a cor se abre sem nenhum interesse pelos aspectos externos à composição, a tinta preta marca as diversas áreas de cor, seccionando e, ao mesmo tempo, integrando os espaços, na tela. Criando ritmos. As questões de pintura assemelham-se mais às questões da música do que qualquer outra arte visual do passado. Diante disso, as imagens de Milliet, que originaram as de van Gogh, são de uma qualidade diferente e, até, menos 'originais'. Ainda que o grau de realismo dos quadros copiados expressem sensibilidade para a questão social, pelos temas escolhidos para serem pintados e que as figuras sejam mimeticamente mais próximas da aparência imediata, a realidade dos quadros do pintor realista são menos reais do que as do pintor pós impressionista. A importância da obra de van Gogh é de outra qualidade porque – nas palavras de Rodrigo Naves – sua pintura se faz “carne”, enquanto Milliet se debate – até por condições históricas – tentando agarrar a aparência das coisas visíveis.

A contribuição deste debate, para nós, contemporâneos, é a de desfazer a imagem de gênio maluco (e otário) que as enciclopédias de arte sempre nos mostraram sobre van Gogh e, por extensão, dos artistas, de maneira geral, vistos como seres que orbitam outros espaços que não o nosso. São mortais e comuns, ainda que possam estar obcecados por suas pesquisas. O que estava em jogo, no momento em que trabalhava, era a descoberta da percepção e do sentido dentro dos próprios quadros pintados. Não é a forma, que já havia sido conquistada pelos clássicos o foco do interesse das pinturas do holandês que cortou a orelha (e, menos ainda, sua vida transtornada), mas a formulação de princípios dentro da realidade do quadro. E é aí que reside o interesse pela sua arte, até hoje.

A ideia de originalidade, na arte, foi construída pela história para valorizar o produto do artista enquanto mercadoria. A própria ideia de arte, que temos hoje, é bastante recente. Ela nasce com o fato da pintura poder expressar semelhança através do uso da perspectiva, do controle da proporção, da aquisição de técnicas que se somam à essas descobertas. Com Petrarca, a cabeça de um homem é comparada à cabeça de um alfinete, vista de longe. Antes, isso era impossível ser expresso. E a cópia era a norma corrente. Depois, a arte passa a ser assinada, como produto autêntico. E o que passa a valer é a documentação da originalidade do trabalho. Quando não, são os especialistas que devem emitir seu juízo científico para dizer se o quadro encontrado no fundo do armário tem valor ou não. Com o Modernismo, a situação se modifica, porque a qualidade de uma pintura não é mais medida pelo seu grau de verossimilhança com as coisas visíveis e comparáveis aos seus pares de época. E chega-se a um ponto em que, quanto mais bizarro e estranho, mais artística a ação ou a obra se torna. Mesmo assim, as comparações continuam para saber quem copiou quem. Por sorte, entre o início do Modernismo e o surgimento da internet, o historiador da arte e da imagem Erwin Panofsky teorizou sobre o que ele chamou de pseudomorfismo: “O surgimento de uma forma A, morfologicamente idêntica a uma forma B, que, no entanto, não mantém relação alguma do ponto de vista genético”1. Ou seja, a motivação que as trazem ao mundo são de ordens, gaus e princípios diversos.

Van Gogh, não por culpa sua, incorpora todos os esteriótipos que acostumou-se atribuir aos artistas. Não é o caso de se levantar pelo direito de ver sua arte purificada de toda a cifra que passou a valer, de toda a loucura que foi sua vida, de todo os escândalo que a sociedade da época estava disposta a fazer, mas de entender a real importância de sua obra como precursora de um modo de ver, sentir e pensar o mundo.




Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. 3 ed. São Paulo: Cia das Letras, 1999
BOIS, Yve-Alan. Conferência inaugural. Anais do XXVI Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte. FAAP – outubro 2006. Belo Horizonte: C/, 2007.
COTRIM, Cecília et FERREIRA, Glória. Clement Greemberg e o debate Crítico. Rio de Janeiro: Zahar, …..
DANTO, Arthur C. Após o fim da arte. São Paulo: EDUSP, 2006.
GOMBRICH, Ernest. História da Arte. ….

1A presente citação foi pinçada do texto de Yve-Alan Bois, « A questão do pseudomorfimo: um desafio para a abordagem formalista » (2007: 13).

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...


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11:54 PM  

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